Uma abelha nativa do Brasil pode ser responsável por um aumento de até 67% na produtividade de plantios de café arábica, do qual o Brasil é o maior produtor e exportador mundial.
Segundo um estudo conduzido pela Embrapa Meio Ambiente em parceria com universidades e instituições nacionais e internacionais, publicado no periódico Frontiers in Bee Science, a abelha mandaguari (Scaptotrigona depilis) contribui para as safras de café, melhora o pegamento dos frutos e pode elevar a produtividade.
As mandaguaris são abelhas sem ferrão, e suas duas espécies mais conhecidas são a mandaguari-preta (S. postica) e a mandaguari-amarela (S. depilis). Elas costumam medir entre 6 mm e 7 mm e são conhecidas pela produção de própolis medicinal, utilizado no tratamento de doenças e no fortalecimento da imunidade.
Elas são polinizadoras essenciais nos ecossistemas tropicais e, segundo descoberta da Embrapa, representam o primeiro registro conhecido de abelhas capazes de cultivar fungos dentro do próprio ninho, utilizados na alimentação de suas larvas.
A visita de abelhas aumenta a quantidade de flores efetivamente fecundadas, e as mandaguaris intensificam a transferência de pólen entre as flores do café durante o período de floração. Isso aumenta a fecundação das plantas antes da autopolinização, uma característica da espécie arábica.
Segundo a pesquisa, a polinização suplementar manejada, técnica agrícola que consiste em utilizar agentes biológicos, como as abelhas, para garantir a fecundação das flores, pode ser empregada no caso da mandaguari para aumentar a produção da cafeicultura brasileira em ramos localizados próximos às colônias.
O estudo foi desenvolvido entre 2022 e 2023 em propriedades produtoras de café arábica nos estados de São Paulo e Minas Gerais.
Os pesquisadores instalaram, antes da florada do café, dez colônias da espécie por hectare em fazendas convencionais desses estados. A intenção era medir o efeito da polinização sobre as plantas.
Para isso, a equipe comparou ramos situados a menos de 50 metros das colmeias com ramos localizados entre 200 e 300 metros de distância das colônias.
Após o período de colheita, os pesquisadores pesaram e contaram os frutos das plantas a fim de estimar o impacto do manejo da polinização sobre a produção.
O resultado foi significativo, relatam os pesquisadores: os ramos mais próximos das colônias produziram cerca de 0,50 kg de frutos por ramo, enquanto aqueles mais distantes produziram aproximadamente 0,30 kg, o que corresponde a um aumento de 67% na produtividade decorrente da atividade das abelhas.
A espécie Scaptotrigona depilis foi escolhida para a pesquisa porque é considerada uma das candidatas mais promissoras para programas de polinização manejada na cafeicultura brasileira, estando presente nas principais regiões cafeeiras do país e sendo capaz de formar colônias numerosas.
As colônias normalmente ocupam cavidades naturais em árvores e constroem ninhos utilizando uma mistura de cera e resinas vegetais (cerume), material que apresenta propriedades antimicrobianas importantes para a proteção da colônia.
O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de café. Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) citados pelos autores, cerca de 82% da área cultivada com café no país corresponde ao café arábica.
Em vez de depender exclusivamente de insumos agrícolas para elevar a produção, a adoção de colônias manejadas de abelhas nativas representa uma estratégia baseada em processos ecológicos naturais, capaz de aumentar o rendimento das lavouras enquanto contribui para a conservação dos polinizadores.
Segundo a primeira autora do estudo, a bióloga Jenifer Dias Ramos, os resultados demonstram que “o uso de abelhas nativas manejadas pode gerar ganhos expressivos de produtividade, ao mesmo tempo em que contribui para a conservação dos polinizadores e para o fortalecimento de sistemas agrícolas mais sustentáveis”, caracterizando uma solução baseada na natureza com grande potencial de aplicação na cafeicultura brasileira.