Ao analisar uma coleção de fósseis, cientistas brasileiros encontraram uma nova espécie e gênero de peixe extinto. Os fragmentos fossilizados foram achados há cerca de 20 anos atrás na estado de Alagoas e estavam armazenados na Coleção de Fósseis da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. O exemplar foi batizado de Gondwanacanthus decollatus.

“O nome é uma mistura interessante: ‘Gondwana’ refere-se ao supercontinente antigo; ‘acanthus’ significa espinho, típico desse grupo, e ‘decollatus’ quer dizer, literalmente, ‘decapitado’. Demos esse nome curioso porque o holótipo, o fóssil principal usado na descrição, não tem a cabeça, devido a um corte feito durante a coleta original da rocha, cerca de 20 anos atrás”, explicam os autores do artigo, Alexandre Cunha Ribeiro e Flávio Bockmann, em entrevista ao Jornal da USP.

O animal primitivo pertence ao grupo Acanthomorpha, no qual possui 18 mil espécies atualmente, e tinha atributos semelhantes aos exemplares modernos com espinhos nas nadadeiras, como bacalhau, a corvina, a garoupa, o linguado e o robalo.

Análises mostraram que o peixe viveu há cerca de 125 milhões de anos, quando o mundo estava unido através do supercontinente Gondwana e o Oceano Atlântico estava no início de sua formação.

Todas as descobertas foram lideradas por pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso, da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Os resultados foram publicados na revista Papers in Palaentology em fevereiro.

Detalhes sobre peixe fóssil alagoano
De acordo com os pesquisadores, o peixe primitivo tinha um corpo alto e arredondado, tendo aproximadamente 24 cm de comprimento na parte que estava preservada. Ele possuía escamas grandes do tipo ‘espinoide’, ou seja, haviam projeções espinhosas na região.

Essa é a primeira evidência de que os peixes com raios espinhosos nas nadadeiras já estavam presentes no mundo há cerca de 20 a 25 milhões de anos antes que a ciência acreditava. “Isso preenche uma lacuna enorme na história evolutiva desse grupo”, afirmam os cientistas.

“O traço mais marcante, que nos permitiu classificá-lo, é a presença de espinhos verdadeiros e não segmentados nas nadadeiras dorsal e pélvica. Além disso, a posição das nadadeiras pélvicas é ‘torácica’, mais à frente no corpo, o que é uma característica anatômica importante desse grupo”, contam os pesquisadores.
Algumas características presentes no animal antigo são compartilhadas até com os peixes modernos com espinhos nas nadadeiras, o que torna ele um parente primitivo da maioria dos exemplares espinhosos atuais.

O achado demonstra a importância das bacias sedimentares brasileiras para estudos relacionados à evolução das espécies quando houve a separação dos continentes.