A violência contra a mulher nem sempre começa em um registro oficial. Muitas vezes, surge primeiro em uma manchete, em uma nota policial, em uma reportagem local que rapidamente desaparece do noticiário. Entre dados fragmentados e subnotificação persistente, centenas de histórias permanecem invisíveis aos sistemas tradicionais de monitoramento.

Foi a partir dessa lacuna que surgiu o projeto “Rastreando a Demografia do Feminicídio no Ceará (2022–2025) Através do Aprendizado de Máquina e Análise Cartográfica”, desenvolvido pela estudante cearense Yanna Francisca Nogueira Queiroz com o objetivo de transformar informação dispersa em evidência científica capaz de orientar políticas públicas.

Utilizando inteligência artificial, processamento de linguagem natural (PLN), aprendizado de máquina e análise geoespacial, a pesquisa resultou em uma ferramenta automatizada capaz de identificar, classificar e mapear casos de feminicídio a partir de mais de 5.000 reportagens e registros textuais, convertendo dados não estruturados em informações demográficas, estatísticas e cartográficas.

O sistema foi treinado para reconhecer elementos essenciais, como idade, cor da pele, localidade, data e circunstâncias do crime, permitindo uma leitura mais precisa da dinâmica da violência de gênero no estado do Ceará.

Mais do que compilar dados, o projeto buscou responder a uma questão central: é possível utilizar inteligência artificial para revelar padrões ocultos pela subnotificação? Os resultados indicam que sim.

Entre 2022 e junho de 2025, a ferramenta identificou 174 vítimas de feminicídio, revelando um cenário preocupante. Quase metade das vítimas eram mulheres negras, evidenciando a interseção entre violência de gênero, desigualdade racial e vulnerabilidade social.

A análise também mostrou que 48,7% dos casos ocorreram no contexto de relações íntimas, envolvendo parceiros ou ex-parceiros.

Com o uso do QGIS, um software de análise geográfica, e de técnicas de cartografia temática, foram produzidos mapas capazes de identificar as regiões com maior concentração de casos.

A análise mostrou que o índice de violência letal contra mulheres aumentou de 1,02 em 2022 para 1,25 em 2024 a cada 100 mil mulheres, evidenciando crescimento progressivo desse tipo de violência no estado.

O modelo Random Forest apresentou acurácia de 98,77%, evidenciando robustez técnica e potencial de aplicação prática.

Mais do que um projeto acadêmico, esta pesquisa propõe uma nova forma de compreender a violência de gênero e oferece subsídios concretos para o desenvolvimento de políticas públicas que podem salvar vidas.