Samoa Americana ocupa o primeiro lugar no ranking das maiores taxas de obesidade do mundo — um dado que, à primeira vista, pode surpreender, mas que revela uma combinação complexa de fatores que vão muito além da alimentação.

Ao lado da Samoa Americana, outros países do Pacífico Sul também aparecem no topo da lista, como Nauru, Toquelau, Ilhas Cook, Niue e Tonga. Não por acaso, oito dos dez países com as maiores taxas de obesidade do mundo estão concentrados nessa região, com percentuais que frequentemente ultrapassam 60% da população adulta vivendo com obesidade.

Parte dessa explicação pode estar na genética. Um estudo publicado na revista Nature Genetics identificou que quase metade da população de Samoa carrega uma variação genética associada a um risco maior de obesidade.

A pesquisa, conduzida por cientistas da Brown University, aponta que pessoas com esse gene têm cerca de 35% mais chance de desenvolver obesidade. Essa predisposição costuma ser relacionada à chamada hipótese do “gene econômico” — uma adaptação evolutiva que favorecia o armazenamento de energia em contextos de escassez alimentar, mas que hoje, diante da abundância calórica, acaba contribuindo para o ganho de peso.

Os números ajudam a dimensionar o problema: na Samoa Americana, cerca de 70% dos adultos vivem com obesidade e quase 90% estão acima do peso.

Mas a genética, sozinha, está longe de explicar esse cenário. Um dos fatores mais determinantes é a mudança radical na alimentação nas últimas décadas. Dietas tradicionais — baseadas em peixe, coco, frutas e raízes — foram rapidamente substituídas por alimentos ultraprocessados importados, como carnes enlatadas, macarrão instantâneo e bebidas açucaradas.

Esse processo foi impulsionado pela globalização e pela dependência econômica: hoje, territórios como a Samoa Americana importam grande parte dos alimentos que consomem, o que torna produtos industrializados mais acessíveis e, muitas vezes, mais baratos do que opções frescas.

Além disso, fatores estruturais ajudam a agravar o problema. A limitação de produção agrícola local, os custos de transporte e a baixa renda média criam um ambiente em que alimentos altamente calóricos e de baixa qualidade nutricional acabam sendo a escolha mais viável.

Em paralelo, houve uma queda significativa nos níveis de atividade física, com a substituição de trabalhos tradicionais, como pesca e agricultura, por ocupações mais sedentárias, além do aumento do uso de carros e mudanças no estilo de vida.

A cultura também desempenha um papel importante. Em muitas sociedades do Pacífico, corpos maiores já foram historicamente associados à prosperidade, saúde e status social, o que influencia a forma como o tema é percebido. Festas e encontros comunitários, frequentemente centrados na comida, reforçam esse padrão alimentar ao longo das gerações.

O resultado é o que especialistas descrevem como uma “tempestade perfeita”: predisposição genética, transição alimentar acelerada, dependência de alimentos importados, mudanças no estilo de vida e fatores culturais atuando ao mesmo tempo. Esse cenário não é exclusivo do Pacífico — mas é ali que ele aparece de forma mais extrema, funcionando como um alerta global.