A zona mesopelágica dos oceanos, também conhecida como zona crepuscular, é o maior e o menos explorado ecossistema habitável da Terra. Situada a uma profundidade entre 200 e 1.000 metros, a luz do sol ainda chega nela, mas de maneira muito fraca, por isso mesmo é nela que a bioluminescência começa a surgir entre muitos animais. Foi neste ambiente, ainda tão misterioso e desconhecido, que cientistas internacionais realizaram uma expedição recentemente, usando novas tecnologias, que permitiram a descoberta de dezenas de novas espécies marinhas.
A bordo do navio de pesquisas Falkor, do Schmidt Ocean Institute, um grupo de pesquisadores internacionais, incluindo brasileiros, navegou pela costa do Ceará, estudando a zona mesopelágica desta área do Oceano Atlântico. Com o auxílio de equipamento de última geração, que analisam animais de forma não invasiva, eles conseguiram descrever 31 novas espécies.
“O maior habitat da Terra, a zona intermediária da coluna d’água, está repleta de animais incríveis que estamos apenas começando a compreender”, diz a cientista-chefe da expedição, Karen Osborn, pesquisadora do Museu de História Natural Smithsonian (EUA). “Continuo fascinada pela fantástica variedade de soluções que eles desenvolveram para sobreviver nesse ambiente desafiador, e isso me motiva a continuar fazendo perguntas sobre o nosso oceano.”
Dezenas de novas espécies marinhas são descobertas em expedição próxima da costa do Ceará
Um polvo (Haliphron atlanticus) se alimentando de uma água-viva a 800 metros de profundidade.
Espécie é raramente vista viva, e a maior parte do que se sabe sobre ela foi determinada a
partir de espécimes capturados em redes de arrasto.
Dentre as espécies recém-descobertas estão nove águas-vivas, dois rizários gigantes – organismos unicelulares visíveis a olho nu, e ainda um anfípode, um tipo de crustáceo aparentado com caranguejos e lagostas e sete ctenóforos, famosos pelos cílios cintilantes que utilizam para nadar.
Estudos em tempo real
A abundância de espécies encontradas na costa cearense surpreendeu cientistas. Além das novas espécies, foram avistados diversos polvos e lulas-de-vidro.
“É uma honra incrível não apenas observar esta vida rara e inspiradora na zona crepuscular, mas também poder trabalhar para descrever e compartilhar essa vida amplamente através do uso de tecnologias novas e não invasivas”, afirma Kakani Katija, engenheira chefe do Laboratório de Bioinspiração do Instituto de Pesquisa de Aquário de Monterey (MBARI), da Califórnia, uma das instituições que participou da expedição.
Dezenas de novas espécies marinhas são descobertas em expedição próxima da costa do Ceará
A pesquisadora brasileira Silvina Botta (Universidade Federal do Rio Grande) coletando amostras de água para análise de isótopos estáveis — um método químico para estudar como o carbono circula pelo oceano
Alguns dos equipamentos utilizados no processo de descrição das novas espécies foram desenvolvidos pelo MBARI, como o DeepPIV (velocimetria por imagem de partículas) e EyeRIS (sistema de imagem remota). Eles foram acoplados a um robô subaquático, e embaixo d’água, escaneavam com lasers os organismos e criavam reproduções dos mesmos em 3D.
Além disso, foi utilizada uma câmera da Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia Marinho-Terrestres (JAMSTEC), que consegue mapear detalhes mínimos, como estruturas internas, sem necessidade de coleta dos mesmos, e também, um super microscópio criado pela Universidade de Stanford (EUA) para analisar a fisiologia dos animais.
Dezenas de novas espécies marinhas são descobertas em expedição próxima da costa do Ceará
Um sifonóforo, invertebrado marinho parente das águas-vivas, é analisado por meio da técnica
DeepPIV (Deep Particle Image Velocimetry)
Os cientistas explicam que muitos organismos da zona mesopelágica são constituídos de massas gelatinosas, e a manipulação acaba danificando seus corpos.
“Isso abre uma nova porta para a pesquisa da fisiologia de águas profundas, conectando arquiteturas celulares ao funcionamento do organismo. Agora podemos observar, em tempo real, processos internos desses organismos extremos, adaptados para suportar pressões imensas e a escuridão”, destaca Manu Prakash, professor de bioengenharia de Stanford.
Lula-de-vidro juvenil, fotografada por uma câmera macro com múltiplas visões, que registra detalhes anatômicos, de coloração e de postura que se perdem — em questão de minutos ou horas — após a coleta do espécime.
Dezenas de novas espécies marinhas são descobertas em expedição próxima da costa do Ceará
A zona mesopelágica dos oceanos, também conhecida como zona crepuscular, é o maior e o menos explorado ecossistema habitável da Terra. Situada a...

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