Em 1899, um evento inusitado surpreendeu a vila de Bagicz, na Polônia, quando um caixão incrivelmente preservado despencou de um penhasco à beira do Mar Báltico. Criado a partir do tronco oco de um carvalho, o sarcófago protegia os restos mortais de uma jovem pertencente à antiga cultura Wielbark.

Inicialmente, devido aos requintados adornos, os pesquisadores acreditavam que o sepultamento pertencia a uma princesa ou figura da alta sociedade.

A mulher foi enterrada junto com uma fíbula de bronze, contas de vidro e âmbar, além de estar deitada sobre uma espessa pele de vaca com um banquinho aos pés. No entanto, investigações modernas revelaram que ela não era da realeza e que seu túmulo era estruturalmente comum para a Idade do Ferro Romana na região.

Consequentemente, o sepultamento só parecia isolado da comunidade porque a forte erosão costeira acabou separando-o dos demais túmulos da época, deixando a falsa impressão de um enterro solitário.

O enigma das datas
De acordo com informações da revista Popular Mechanics, apesar de os artefatos apontarem para a primeira metade do século 2 d.C., um grande mistério persistia há décadas entre os cientistas. A datação por radiocarbono feita no dente da jovem sugeria que ela havia morrido cem anos antes da fabricação do seu próprio caixão.

Para solucionar essa discrepância sem destruir o artefato de madeira milenar, a arqueóloga Marta Chmiel-Chrzanowska liderou um novo estudo focado em análises avançadas.

Graças aos modernos avanços tecnológicos, a equipe pôde usar métodos de datação dendrocronológica muito menos invasivos do que no passado. Ao medir os anéis de crescimento de uma pequena amostra do alburno da árvore, os pesquisadores confirmaram que a madeira foi cortada entre 112 e 128 d.C.

Sendo assim, essa preservação rara do sarcófago só foi possível graças ao ambiente totalmente sem oxigênio, criado pela submersão costeira ao longo dos séculos.

Dieta e origem reveladas
Para explicar a diferença centenária no dente, o estudo concluiu que a dieta da mulher, muito rica em proteína animal e marinha, causou uma alteração artificial na leitura do isótopo de carbono-14.

Além disso, os exames detalhados de estrôncio sugerem que ela possivelmente não era uma habitante local da bacia do Mar Báltico, tendo se alimentado com comidas estrangeiras.

Portanto, a recente descoberta de Marta Chmiel-Chrzanowska levanta questões fascinantes sobre a intensa mobilidade e as complexas trocas culturais que ocorriam no antigo mundo europeu.