Conhecida pelo alto preço, pela maciez e pelo sabor diferenciado, a carne Wagyu, originária de uma raça bovina japonesa e considerada uma das mais caras do mundo, está deixando de ser exclusividade de restaurantes sofisticados e boutiques especializadas para ganhar espaço nas prateleiras de supermercados brasileiros. A expansão inclui desde cortes nobres até hambúrgueres, linguiças, almôndegas e opções tradicionalmente mais baratas, como costela e acém.
O movimento é liderado pela Guidara, empresa sediada em Americana, no interior de São Paulo, que possui o maior rebanho de Wagyu do Brasil. A companhia decidiu diversificar sua produção para alcançar novos consumidores e melhorar a rentabilidade de uma atividade marcada por elevados custos de criação.
Após investir R$ 30 milhões em uma unidade de desossa e industrialização, inaugurada em 2020, a empresa passou a desenvolver produtos voltados ao consumo cotidiano. Em 2026, ampliou a fabricação de hambúrgueres e linguiças e iniciou a produção de almôndegas, além de apostar em embalagens menores de cortes como picanha, ancho e chorizo.
Atualmente, a marca está presente em 51 redes varejistas distribuídas pelo Brasil, incluindo Pão de Açúcar, Zaffari, Zona Sul, San Marché, Grupo Mateus e estabelecimentos de diferentes regiões do país. A expansão também prevê a entrada em seis unidades do Sam's Club.
Segundo informações divulgadas pelo jornal Valor Econômico, o mercado brasileiro absorve aproximadamente 90% da produção da Guidara. Desse volume comercializado internamente, 60% é destinado ao varejo e 40% ao setor de restaurantes e serviços de alimentação.
Carne pode custar até R$ 950 o quilo
Apesar da estratégia de ampliar o acesso ao produto, o Wagyu continua sendo uma carne de alto valor agregado.
De acordo com o CEO da Guidara, Daniel Steinbruch, a empresa oferece desde opções de costela por R$ 28,50 até cortes de ancho comercializados por R$ 950 o quilo para redes varejistas.
Uma picanha inteira da raça, que pode pesar aproximadamente 2,5 quilos, chega a custar R$ 2,5 mil.
A diretora técnica da companhia, Tatiana Caruso, explica que a possibilidade de fracionar as peças foi fundamental para a entrada nos supermercados. Como os animais são abatidos com peso superior ao de muitas raças convencionais, os cortes costumam ser maiores e, consequentemente, mais caros.
Com a industrialização e a venda de porções menores, a empresa passou a alcançar consumidores que antes não tinham acesso ao produto.
O que torna a carne Wagyu tão cara?
O principal diferencial do Wagyu é o chamado marmoreio, caracterizado pela gordura distribuída entre as fibras musculares. Durante o preparo, essa gordura derrete e contribui para a maciez, a suculência e o sabor característico da carne.
Para alcançar esse padrão, os animais recebem cuidados específicos desde a gestação.
As matrizes são suplementadas com proteínas na fase final da gravidez, enquanto os bezerros recebem alimentação formulada com ingredientes especiais, incluindo óleos essenciais e extratos naturais.
O manejo também inclui a castração dos machos antes da idade adulta, como parte da estratégia de desenvolvimento do marmoreio.
Esse processo exige mais tempo, investimento e controle nutricional do que a produção convencional. Em contrapartida, a arroba do Wagyu pode alcançar valor aproximadamente 2,5 vezes superior ao de bovinos tradicionais.
Restaurantes e exportações impulsionam crescimento
Além dos supermercados, a Guidara fornece carne para redes de hamburguerias e restaurantes, como Cabana Burger, Pobre Juan, Quebrada Burger, Z Deli e o restaurante Tuju, reconhecido pela alta gastronomia.
A empresa também intensificou sua presença no mercado internacional.
Após iniciar exportações no fim de 2025 para destinos como Maldivas, Kuwait e Argentina, a companhia ampliou os embarques em 2026, incluindo países como Egito, Emirados Árabes Unidos, Chile e Cingapura.
Atualmente, as exportações giram em torno de 20 toneladas mensais. A expectativa é manter esse volume em 2027 e dobrá-lo em 2028, chegando a 40 toneladas por mês, conforme a disponibilidade de animais para abate.
Segundo a direção da empresa, as vendas externas devem representar mais de 10% do faturamento comercial em 2026.
Produção brasileira deve crescer até 40%
A Guidara mantém aproximadamente 1,8 mil animais puros da raça Wagyu em sua propriedade de Americana.
Para 2026, a previsão é abater cerca de 2,8 mil bovinos, considerando animais próprios, cruzados e de pecuaristas parceiros. Desse total, aproximadamente 600 serão provenientes do rebanho puro da empresa.
Com a ampliação da distribuição e a diversificação dos produtos, a companhia estima um crescimento de 30% a 40% na produção de carne neste ano.
A estratégia mostra uma mudança no posicionamento comercial do Wagyu no Brasil. Embora os cortes mais nobres continuem voltados a consumidores de maior poder aquisitivo, a oferta de produtos processados e embalagens menores abre espaço para a carne japonesa alcançar um público mais amplo.