Uma nova regra de segurança do Pix passou a valer nesta terça-feira (1º de setembro) e amplia de 30 para 80 dias o prazo para contestar devoluções realizadas pelo Mecanismo Especial de Devolução (MED) quando houver suspeita de fraude. A mudança busca fechar uma brecha explorada por criminosos e aumentar a proteção principalmente de comerciantes, prestadores de serviços e pequenos empresários.
Na prática, o Banco Central amplia o tempo disponível para que uma pessoa ou empresa tente reverter uma devolução que tenha sido provocada fraudulentamente por quem realizou o pagamento original.
A alteração pode parecer técnica, mas atinge um golpe relativamente simples: o criminoso envia um Pix, convence a vítima a devolver o dinheiro e, paralelamente, tenta recuperar novamente o pagamento original por meio dos mecanismos bancários de contestação.
O resultado pode ser um prejuízo em dobro.
Dois prazos de 80 dias
Com a mudança, o Pix passa a trabalhar com dois prazos de 80 dias relacionados ao MED, mas destinados a situações diferentes.
Quem envia um Pix e posteriormente descobre ter sido vítima de fraude já pode solicitar a abertura do MED em até 80 dias contados da transferência.
A novidade beneficia o outro lado da operação: quem recebeu legitimamente o dinheiro, mas teve os recursos posteriormente devolvidos em razão de uma contestação fraudulenta, também passa a contar com até 80 dias para reagir.
Nesse segundo caso, a contagem começa na data da devolução.
A diferença é importante: um prazo protege quem enviou dinheiro para um golpista; o outro busca proteger quem recebeu legitimamente, mas acabou atingido pelo uso fraudulento do mecanismo de devolução.
O golpe do “Pix errado”
Uma das situações que ajudam a explicar a mudança começa com uma abordagem aparentemente inocente.
O suposto cliente faz uma transferência e depois entra em contato dizendo que enviou o Pix por engano ou depositou um valor superior ao correto. Em seguida, pede que o comerciante devolva o dinheiro, muitas vezes indicando outra chave Pix.
A vítima acredita estar agindo de boa-fé e realiza uma nova transferência.
É justamente aí que mora o risco.
Paralelamente, o autor do golpe pode contestar o Pix original junto à instituição financeira alegando ter sido vítima de fraude. Se a contestação avançar e houver recursos disponíveis, ele pode tentar receber o dinheiro novamente pelo mecanismo bancário.
Nesse cenário, o comerciante corre o risco de perder o valor duas vezes: na transferência realizada voluntariamente e na devolução decorrente da contestação.
Recebeu um Pix por engano? Cuidado na hora de devolver
A principal recomendação é não criar uma nova transferência para uma chave fornecida por quem entrou em contato pedindo o dinheiro.
Quando for necessário devolver um Pix recebido, a alternativa mais segura é utilizar a própria funcionalidade de devolução vinculada à transação original, disponível no aplicativo da instituição financeira.
Dessa maneira, a operação permanece associada ao pagamento que deu origem à devolução.
A cautela é especialmente importante para empresas que recebem dezenas ou centenas de pagamentos diariamente e podem ter dificuldade para identificar rapidamente uma movimentação irregular.
Pix tenta seguir o caminho do dinheiro
Outra mudança importante no combate às fraudes é a evolução do MED.
O chamado MED 2.0, em produção desde maio de 2026, permite ampliar o rastreamento dos valores depois que o dinheiro deixa a primeira conta utilizada na fraude.
Antes, uma das principais dificuldades para recuperar recursos era justamente a velocidade dos criminosos. Após receber o Pix, o golpista podia transferir rapidamente o dinheiro para outras contas, deixando a primeira sem saldo suficiente para bloqueio.
Com o novo modelo, o sistema consegue identificar possíveis caminhos percorridos pelos recursos em sucessivas transferências.
Isso amplia as possibilidades de localização e bloqueio, mas não significa que todo dinheiro roubado será recuperado.
Caso os valores já tenham sido sacados, gastos ou movimentados para fora das contas identificadas, a recuperação pode se tornar mais difícil.
Uma etapa adicional de detalhamento operacional prevista inicialmente para agosto foi adiada para 26 de outubro de 2026. Segundo o Banco Central, a alteração envolve a comunicação entre as instituições e não impede o rastreamento em diferentes camadas já realizado pelo MED 2.0.
MED não é botão para cancelar Pix
Apesar do nome, o Mecanismo Especial de Devolução não funciona como uma ferramenta para simplesmente “desfazer” uma transferência.
O MED é destinado a situações específicas envolvendo fraude, golpe ou falha operacional.
Ele não deve ser utilizado para cancelar uma compra por arrependimento, resolver uma disputa comercial comum ou corrigir voluntariamente um Pix enviado para a pessoa errada sem indícios de fraude.
Também não existe garantia automática de recuperação.
Após a abertura do procedimento, as instituições financeiras analisam o caso. No fluxo de fraude, os bancos envolvidos têm prazo para avaliar a notificação e verificar se a ocorrência se enquadra nas regras do mecanismo.
Se a fraude for reconhecida e ainda houver dinheiro disponível, a devolução poderá ser total ou parcial.
Caiu em golpe? Velocidade pode fazer diferença
Apesar de existir um prazo de até 80 dias, a orientação é comunicar a instituição financeira assim que a fraude for percebida.
Quanto mais rapidamente o MED for acionado, maiores podem ser as possibilidades de localizar valores ainda disponíveis nas contas envolvidas.
O procedimento pode ser iniciado pelo próprio aplicativo bancário. Instituições que oferecem contas para pessoas físicas devem disponibilizar uma alternativa de autoatendimento para contestação de operações dentro do ambiente do Pix.
A vítima também deve preservar o máximo possível de provas, como comprovantes bancários, capturas de tela das conversas, anúncios, números telefônicos, chaves Pix e informações sobre o destinatário.
Dependendo das circunstâncias, o registro de boletim de ocorrência também pode auxiliar na documentação do crime.
A principal regra, entretanto, continua sendo a rapidez. Embora o sistema esteja ganhando ferramentas para seguir o rastro eletrônico deixado pelo dinheiro, criminosos também tentam movimentar os recursos rapidamente. No Pix, alguns minutos podem separar um bloqueio bem-sucedido de um dinheiro que já percorreu diversas conta