O sono de qualidade é essencial para todos nós. Além de descansar o corpo, permite a restauração física e mental, a organização do cérebro, a consolidação de aprendizados e a eliminação de toxinas. No entanto, em meio a uma rotina tão corrida, a maioria das pessoas não tira o tempo ideal de descanso e acaba recorrendo ao despertador para levantar mesmo cansadas, com alarmes seguidos, separados por poucos minutos.

Apesar de ajudar a não se atrasar para os compromissos, o alarme nos leva a acordar abruptamente e muitas vezes sem ter completado o ciclo do sono. A privação crônica de descanso pode levar a consequências preocupantes no futuro.

Mesmo durante o sono, o cérebro permanece ativo. No entanto, ele diminui a percepção de estímulos externos, como toques e ruídos, de forma parcial. O órgão não “desliga” totalmente para estar preparado se for preciso despertar em algumas situações, como escutar alguém chamando nosso próprio nome ou o toque habitual do despertador.

Mas o susto para levantar nos prejudica. Ao acordar abruptamente, o sistema nervoso simpático é acionado para reagir de forma rápida.

“Acordar no susto aumenta a liberação de cortisol, hormônio do estresse, e a longo prazo sobrecarrega nosso sistema cardiovascular por aumento transitório de batimentos cardíacos e pressão arterial”, explica o neurologista Lucio Huebra, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

Outro fenômeno que acontece é despertar quando estamos em estágios de sono mais profundos do que quando naturalmente acordamos. “Isso pode levar a despertares parciais com confusão mental transitória, uma demora para reconhecimento do tempo e espaço”, conta

Segundo a neurofisiologista Andrea Bacelar, a privação do sono crônica abaixa a imunidade e eleva o risco de doenças, incluindo infecções, hipertensão, diabetes, obesidade e até o desenvolvimento de tumores. “O hábito também pode antecipar predisposições genéticas já existentes no organismo”, afirma a especialista em medicina do sono e membro da Academia Brasileira do Sono (ABS).

Por que acordar constantemente com alarme é prejudicial?

Quando utilizado apenas como uma garantia para despertar — ou seja, a pessoa já está preparada fisiologicamente para acordar —, o alarme não é um problema e nem afeta a qualidade do descanso.

O ponto preocupante acontece em indivíduos com dificuldade para dormir em um horário suficiente para o descanso ou que têm hábitos mais noturnos e precisam acordar muito cedo

“Nesses casos, o despertador interrompe o sono em momentos inadequados, como durante o sono REM ou até mesmo no sono profundo, o que gera um despertar abrupto e não reparador”, aponta a neurofisiologista Andrea Bacelar.

Viver constantemente dormindo pouco e levantando com o alarme leva a um ciclo extremamente prejudicial, quase como um cansaço crônico. Em algumas situações, a pessoa fica tão esgotada que nem sequer escuta o alarme. “Quando há uma grande dívida de sono, a necessidade fisiológica de continuar dormindo é tão intensa que o estímulo sonoro não é suficiente para ativar o córtex cerebral e gerar a consciência do despertar”, diz a médica

Como acordar sem despertador?

Para acordar de forma espontânea, sem perder o horário, é preciso seguir dois pilares importantes: comprometimento e regularidade. Isso porque a principal medida é adotar hábitos de higiene do sono constantes, mesmo aos finais de semana. Entre as principais recomendações estão:

  • Ter horários regulares para despertar e dormir, inclusive aos finais de semana;
  • Evitar atividades estimulantes antes de dormir, como malhar pesado;
  • Não dormir no sofá para não transmitir mensagens contraditórias ao cérebro;
  • Evitar dormir com fome ou após fazer refeições pesadas;
  • Manter um ambiente adequado para descansar, com temperatura confortável, escuridão e silêncio.

Ter uma rotina alimentar equilibrada todos os dias e adaptar a agenda de compromissos durante folgas são hábitos que têm impacto bastante significativo a longo prazo para o bem-estar e autocuidado

“A dependência do alarme do despertador para acordar para os compromissos pela manhã deve sempre ser encarada como um sinal de alerta de que estamos encurtando nossas horas de sono. Se o desconforto no início da semana é maior, significa que o sono nos dias de trabalho tem sido forjado e amputado”, alerta Huebra..