A abertura da tumba do rei Casimiro IV Jaguelão, um dos mais importantes soberanos da história da Polônia, deu origem a uma das histórias mais intrigantes da arqueologia europeia. Em 1973, uma equipe de pesquisadores recebeu autorização especial para acessar a cripta localizada na Capela do Castelo Real de Wawel, em Cracóvia, com o objetivo de estudar os restos mortais do monarca.

Poucos dias depois da entrada no túmulo, quatro dos 12 integrantes da expedição morreram. Nas semanas seguintes, o número de vítimas aumentou, e, ao longo dos anos, chegou a 15 pessoas que haviam participado diretamente da exploração ou do manuseio dos restos mortais em laboratório.

A “maldição” do rei
As mortes despertaram especulações sobre uma possível “maldição”, relembrando o famoso episódio envolvendo a abertura da tumba do faraó Tutancâmon, no Egito, em 1922. Na ocasião, o falecimento de Lord Carnarvon, financiador da expedição arqueológica liderada por Howard Carter, poucas semanas após a descoberta do túmulo, popularizou a ideia de que antigos sepulcros estariam protegidos por forças sobrenaturais capazes de punir invasores.

Décadas mais tarde, entretanto, cientistas passaram a investigar hipóteses menos místicas e mais compatíveis com o conhecimento médico. No caso da tumba do rei Casimiro IV, pesquisas indicam que a explicação para as mortes provavelmente estava relacionada à exposição a concentrações extremamente elevadas de fungos microscópicos preservados no ambiente fechado da cripta por quase cinco séculos.

Na época da abertura do túmulo, o acesso a monumentos históricos na Polônia era rigidamente controlado pelo governo. Ainda assim, o então arcebispo de Cracóvia, Karol Wojtyła — que anos depois seria eleito papa João Paulo II — concedeu autorização para que os arqueólogos realizassem os estudos no interior do sepulcro.

Segundo relatos, alguns integrantes da equipe chegaram a brincar sobre a possibilidade de existir uma maldição antes de entrarem na câmara funerária. O clima de descontração desapareceu rapidamente quando as mortes começaram a ocorrer em sequência, fortalecendo rumores que se espalharam pela imprensa e pela população.

Explicações para o fenômeno
Somente anos depois, com o avanço das pesquisas em microbiologia, tornou-se possível compreender o que realmente poderia ter acontecido. Estudos realizados na tumba do rei revelaram uma elevada concentração de diferentes espécies de fungos potencialmente perigosos para a saúde humana, entre eles Aspergillus, Penicillium rubrum e Penicillium rugulosum.

Esses micro-organismos normalmente estão presentes no ambiente e, em indivíduos saudáveis, costumam provocar apenas reações alérgicas, irritações respiratórias ou quadros leves de inflamação. Entretanto, quando seus esporos são inalados em quantidades excepcionalmente altas — especialmente em ambientes fechados e sem ventilação, como criptas lacradas durante séculos —, eles podem causar infecções graves, principalmente em pessoas com o sistema imunológico comprometido.

Entre as doenças associadas à exposição intensa ao gênero Aspergillus está a aspergilose, infecção que pode atingir profundamente os pulmões. Em alguns casos, o quadro evolui rapidamente e pode levar à morte em poucos dias. Em outros, a doença permanece silenciosa durante meses ou até anos antes de se manifestar de forma severa.

Um estudo publicado em 2015 no Journal of the Air & Waste Management Association analisou a qualidade do ar em diversas criptas históricas da Polônia, incluindo a de Casimiro IV. Os pesquisadores concluíram que a quantidade de fungos presente nesses ambientes ultrapassava os limites considerados seguros para exposição ocupacional. Os autores alertaram que profissionais responsáveis pela conservação e pesquisa desses locais deveriam receber treinamento específico e utilizar equipamentos de proteção adequados para minimizar os riscos à saúde.

As próprias circunstâncias do sepultamento do rei podem ter favorecido a proliferação dos fungos. Casimiro IV nasceu em 1427, tornou-se Grão-Duque da Lituânia em 1440 e foi coroado rei da Polônia em 1447. Seu reinado é considerado um dos mais importantes da história do país, marcado pelo fortalecimento político e pela ampliação da influência polonesa na Europa.

Quando morreu, em 1492, aos 65 anos, a região enfrentava um período de calor intenso. O corpo começou a entrar em decomposição rapidamente antes mesmo de ser enterrado. Envolvido apenas por um tecido e depositado em um caixão simples de madeira, o cadáver permaneceu em condições que favoreceram o crescimento de colônias de fungos ao longo dos séculos.

Quando os arqueólogos finalmente abriram a tumba, em 13 de abril de 1973, encontraram o caixão completamente deteriorado. Embora a madeira tivesse praticamente desaparecido, os fungos haviam sobrevivido e prosperado dentro do ambiente fechado, preservando uma enorme quantidade de esporos invisíveis que foram liberados no ar no momento da abertura da cripta.

Embora a sequência de mortes tenha alimentado histórias sobre uma nova “maldição de múmia”, a maioria dos especialistas considera que o episódio representa, na realidade, um exemplo dos perigos biológicos presentes em ambientes arqueológicos selados por longos períodos. Hoje, expedições desse tipo costumam adotar protocolos rigorosos de biossegurança, incluindo máscaras de alta filtragem, roupas de proteção e monitoramento da qualidade do ar antes da entrada em câmaras funerárias antigas, reduzindo significativamente o risco de exposição a micro-organismos potencialmente letais.