Eu me lembro de quando era criança e ia com meus pais sacar dinheiro no caixa eletrônico quando o salário caía. Era um evento. Ainda peguei uma época em que o caixa “falava” com uma voz feminina: “Por favor, insira seu cartão”. Era o máximo, quase mágico! Uma vez, pedi alguma coisa e minha mãe respondeu que não tinha mais dinheiro. Na hora rebati: “Ué, é só pedir pra moça que fica dentro do caixa”.
Hoje em dia, o equivalente do meu filho é “passar o cartão”. Ele ainda não entende que o cartão é apenas um meio de pagamento, mas que, antes disso, é preciso gerar o crédito. Afinal, sem crédito, o cartão não passa de um pedaço de plástico.
Como as crianças não enxergam as notas e muitas não participam das compras, elas só sabem que os pais passam no débito ou no crédito.
Por isso, falar com elas sobre dinheiro em um mundo digital é um desafio importante que pais devem enfrentar para ensinar sobre o real valor das coisas.
Quando falar sobre dinheiro?
De acordo com a especialista financeira Patrícia Lages, o que determina o aprendizado é a curiosidade e o interesse da criança. No caso das finanças, quando ela começa a pedir coisas (principalmente se usa o verbo comprar), já é momento de introduzir dois conceitos: o de que cada coisa tem um preço e o de que, para tê-las, é preciso pagar esse preço.
“É importante considerar que toda explicação deve ser adaptada para que a criança realmente a entenda. Por exemplo: se a criança quer um brinquedo, os pais podem criar uma tarefa [segundo a idade e a habilidade da criança] durante alguns dias para que, depois de realizada, a criança receba o que pediu. Isso vai mostrar a ela que ‘preço’ está relacionado a esforço, e esta já será uma grande lição”, afirma Patrícia.
Ter dinheiro físico ajuda
O que a criança não pode ver ou tocar muitas vezes não faz sentido para ela. Por isso, dar esse acesso às crianças muda tudo. “Como ainda temos notas e moedas em circulação, usá-las vai ajudar muito o entendimento da criança sobre a dinâmica de receber, comprar e poupar”, explica a especialista.
Ela ainda propõe um exercício simples, mas muito eficaz: deixem que as crianças participem ativamente das compras no supermercado.
Em vez de não levá-la para evitar que ela peça tudo o que vê pela frente, o ideal é dar a ela dinheiro trocado, conforme a idade, e dizer à criança que ela pode comprar o que quiser com aquele valor. Os pais não devem intervir na escolha nem dar ou emprestar mais dinheiro. Apenas auxiliar a criança com os preços e explicar se o dinheiro que ela tem é suficiente ou não.
“Geralmente, a criança começa, por si mesma, a comparar preços e produtos para fazer a melhor escolha possível. Na hora de passar no caixa, os pais devem passar primeiro a compra da criança e deixar que ela entregue o dinheiro. Há casos em que, quando a criança percebe que ficará sem o dinheiro, pode se recusar a pagar”, relata Patrícia.
Se isso ocorrer, os pais devem dar duas opções: entregar o dinheiro ou devolver o produto. Muitas vezes, a criança acaba voltando com o dinheiro para casa, preferindo guardar a gastar.
Ainda segundo ela, é a repetição dessa dinâmica que vai mostrar aos pequenos que existe “perda” no ato de comprar, e essa é uma lição importantíssima que eles vão levar para a vida.
Criança é reflexo dos pais
A primeira coisa que os pais devem entender é que a forma como eles veem o dinheiro faz total diferença na percepção dos filhos.
Patrícia explica que, por exemplo, pais que brigam por causa de dinheiro e que se referem a ele como um problema estão ensinando os filhos a verem as finanças como algo negativo.
“É preciso introduzir o assunto como algo positivo e natural. Se a criança pede algo, não é momento de dizer coisas como: ‘isso não é para o nosso bico’, ‘isso é coisa de rico’ ou qualquer outra frase que bloqueie o querer da criança. O ideal é transformar o pedido em uma oportunidade de ensino. Se se trata de algo fora do orçamento, os pais devem mostrar opções possíveis de forma positiva, valorizando o que podem ter, tirando o foco do que não podem no momento”, ensina.
O excesso também pode ser um vilão. Quanto mais coisas uma criança tem, menos valor dá a elas. E, quando a criança entende que, para ter o que quer, basta pedir, ela assume uma percepção irreal e que, certamente, se transformará em frustração quando qualquer coisa lhe for negada.
“É preciso valorizar a expectativa e validar o desejo, pois o que a criança tanto quer hoje pode ser facilmente esquecido amanhã. Ganhar algo periodicamente e sem motivo faz com que os presentes percam o valor. Mas ganhar algo com o qual a criança sonhou, criou expectativas e participou ativamente (realizando tarefas, por exemplo) torna-se uma conquista”, finaliza Patrícia.