Há pouco mais de dois meses (em 6 de fevereiro), uma armadilha fotográfica instalada numa trilha em uma floresta nublada, no alto da Sierra del Merendón, em Honduras, registrou um acontecimento raro: a passagem de uma onça-pintada-das-nuvens macho, com aparência impressionantemente saudável. 

A maioria das onças-pintadas vive abaixo de mil metros de altitude e essa serra não possui uma população residente. Como este local é o ponto mais alto do país – cerca de 2.200 metros de altitude, portanto, muito cheio de nuvens –, as onças-pintadas que já passaram pela região (foram apenas três; antes do novo registro) receberam o apelido de cloud jaguar, traduzido livremente como jaguar das nuvens, onça-pintada-das-nuvens ou onça-pintada-nublada. 

Portanto, não se trata de um indivíduo de uma nova espécie, mas da Panthera onca, o maior felino das Américas, encontrado desde o sul dos EUA até o norte da Argentina, com a maior população no Brasil. 

Múltiplos esforços de conservação
O registro da onça rara deixou os biólogos da Panthera, organização de conservação de grandes felinos, muito entusiasmados, visto que, dos três avistamentos em altas altitudes, o último se deu em 2016, a apenas dois metros do local de agora.

Esse episódio levou a Panthera e parceiros – entre eles, a Wildlife Without Borders – a estabelecer um corredor ecológico protegido na Sierra del Merendón, entre Honduras e Guatemala. 

Desde então, eles vêm realizando múltiplos esforços de monitoramento, com base em alta tecnologia e na reintrodução de presas para esse felino, como iguanas e catetos. A organização também tem apoiado patrulhas de guardas florestais para combater a caça ilegal dessas espécies que alimentam o felino.

Soma-se a essas estratégias exitosas uma estrutura internacional adotada em 2025 para a conservação da espécie – o Jaguar Rivers: o maior corredor de vida selvagem da América do Sul –, idealizada pelo Onçafari (Brasil), a Fundación Rewilding Argentina, a Fundación Moises Bertoni (Paraguai) e a Nativa Naturaleza Tierra y Vida (Bolívia), como contamos aqui.

Esse corredor ecológico, conhecido como Corredor da Onça-Pintada, abrange uma área de 2,5 milhões de km2, quase duas vezes o tamanho do Alasca, conectando habitats do México à Argentina, e assegura a proteção e a volta de espécies-chaves a seus habitats originais, permitindo não só que elas se desloquem, mas encontrem parceiros e mantenham a diversidade genética.

Também fortalece o Plano de Conservação da Onça-Pintada 2030 (Jaguar 2030 Roadmap), lançado na COP14 da Biodiversidade, em 2018. Nessa ocasião, o plano foi endossado por 16 dos 18 países (Honduras entre eles), que representam a área de distribuição natural desse felino. 

Por tudo isso, o registro da onça-pintada na Serra del Merendón, em fevereiro, pode ser o primeiro de muitos a celebrar.

A espécie e a recuperação florestal em Honduras
Segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza), já perdeu 49% de sua área de distribuição histórica nas Américas. A maior população está na Amazônia e as demais são classificadas como ameaçadas de extinção ou criticamente ameaçadas.

Em Honduras, a espécie é protegida, mas enfrenta grandes desafios já que o país tem uma das maiores taxas de desmatamento da América Latina. Entre 2001 e 2024, de acordo com a Global Forest Watch, foram destruídos 1,5 milhão de hectares (3,7 milhões de acres) de cobertura florestal — 19% do total —, devido principalmente à agropecuária. 

O governo, então, declarou estado de emergência ambiental para proteger florestas e a vida selvagem, se comprometendo a reduzir e zerar o desmatamento até 2029, além de restaurar 1,3 milhão de hectares de floresta.

Os esforços de conservação da Panthera – a fim de ampliar ainda mais as chances de sobrevivência da onça-pintada -, com certeza têm contribuído com a estratégia do governo de Honduras. Em seus planos está o estabelecimento de novas áreas protegidas em Honduras, em parceria com o Rainforest Trust, entre outras organizações.

* Com informações da Good News Network, Nautil.us e CNN