Um cadastro ambiental rural supostamente fraudado serviu de base para uma avaliação de R$ 84 milhões apresentada como garantia em tentativas de obtenção de crédito junto a instituições financeiras. O caso levou a Polícia Civil de Mato Grosso a deflagrar, nesta terça-feira (18.08), a Operação Canadá, com o cumprimento de 14 mandados de busca e apreensão.

A investigação aponta que um grupo teria alterado eletronicamente os dados de uma fazenda localizada em Confresa. A área vinculada ao imóvel no Cadastro Ambiental Rural (CAR) teria sido deslocada para outra região de Mato Grosso sem o conhecimento dos proprietários. Referência da distância

Os mandados foram cumpridos em Cuiabá, Rondonópolis, Ribeirão Cascalheira e Tailândia, no Pará. Entre os alvos estão engenheiros florestais, técnicos em agrimensura, responsáveis por empresas de topografia e engenharia e pessoas que aparecem como procuradoras em documentos cartorários considerados suspeitos.

A Delegacia Especializada do Meio Ambiente (Dema), responsável pela investigação, informou que não encontrou indícios da participação de servidores da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema). O órgão estadual e os proprietários da Fazenda Canadá são tratados como vítimas.

Área da fazenda teria sido deslocada no sistema

A investigação começou depois que os proprietários identificaram uma alteração na representação geográfica da fazenda dentro do Sistema Mato-grossense de Cadastro Ambiental Rural (Simcar).

Segundo a Dema, o desenho eletrônico que delimitava a propriedade foi retirado da localização original e inserido em outra região do Estado. As senhas e os endereços de e-mail usados para acessar o cadastro também teriam sido modificados.

Os investigadores apontam que o grupo criou novos cadastros ambientais em nome dos donos da fazenda, sem autorização. Documentos cartorários com informações supostamente falsas também teriam sido produzidos para simular a transferência de parte da propriedade.

Entre os documentos investigados estão procurações públicas, substabelecimentos de poderes e escrituras de compra e venda. A suspeita é de que o material tenha sido elaborado para dar aparência de legalidade à mudança de titularidade da área.

Um dos cadastros supostamente fraudulentos foi utilizado na produção de uma avaliação rural de R$ 84 milhões. O documento teria sido apresentado como garantia em tentativas de contratação de empréstimos. O material divulgado não informa quais instituições financeiras receberam a documentação nem se algum crédito chegou a ser liberado.

Investigação apura pagamento de propina

A Dema também identificou indícios de pagamento de propina a um escrevente de cartório. Conforme a investigação, o dinheiro teria sido oferecido para viabilizar o reconhecimento de assinaturas falsas em um contrato de arrendamento da propriedade.

Os alvos são investigados por fraude em informações ambientais, falsidade ideológica, falsificação de documento público, uso de documento falso, estelionato, corrupção ativa e associação criminosa.

As suspeitas ainda dependem da conclusão do inquérito e de eventual análise pelo Ministério Público e pela Justiça.

Mandados em Mato Grosso e no Pará

Além de Cuiabá, as buscas ocorreram em Rondonópolis e Ribeirão Cascalheira, distante aproximadamente 745 quilômetros por rodovia. No Pará, as equipes cumpriram mandados em Tailândia. Rondonópolis e Ribeirão Cascalheira

As ordens foram expedidas pelo Núcleo de Justiça 4.0 do Juiz das Garantias — Polo Barra do Garças.

A operação mobilizou 54 policiais civis, além de peritos da Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec). A Polícia Civil do Pará auxiliou no cumprimento das buscas realizadas em Tailândia.

Computadores, celulares, documentos e outros materiais apreendidos serão submetidos à perícia e analisados pelo Núcleo de Inteligência da Dema. O resultado deverá orientar a conclusão do inquérito e a decisão sobre eventuais indiciamentos.