Chegou a 18 o número de mulheres vítimas de feminicídio em Mato Grosso, conforme atualização do Observatório Caliandra, gerido pelo Ministério Público de Mato Grosso (MPMT). Na semana passada, a reportagem noticiou que o Estado havia registrado 17 casos. Contudo, apesar de não haver registro do crime nesta semana, o assassinato da cozinheira Regiane Oliveira Lima, de 38 anos, ocorrido no início do ano, em Pontes e Lacerda, inicialmente tratado como homicídio, passou a ser investigado como feminicídio neste mês, com o avanço das apurações.

À época, o corpo de Regiane foi encontrado próximo à região de garimpo da Ponte Sararé. A ocorrência foi tratada como encontro de cadáver pela Polícia Civil. Ela era natural de Itaituba (PA) e trabalhava como cozinheira no local.

Regiane e outras 17 mulheres se tornaram estatísticas de um crime cruel que assola Mato Grosso. Em janeiro deste ano, além dela, outras duas mulheres foram vítimas de feminicídio: Laila Caroline Souza da Conceição, em Nova Maringá, e Ana Paula Lima Carvalho, em Chapada dos Guimarães.

Laila foi assassinada a facadas pelo cunhado, Gutemberg Lima Santos, de 29 anos, na frente dos filhos. Já a esteticista Ana Paula foi esfaqueada pelo ex-genro. Ela sobreviveu ao ataque inicialmente, mas morreu dias depois no hospital.

De janeiro a maio, muitas outras vidas de mulheres foram ceifadas. Somente neste mês, quatro foram brutalmente assassinadas.

Na primeira semana do mês, a estudante de Direito Valéria Araújo Corrêa, de 28 anos, foi morta e estuprada por José Carlos Gomes de Souza, de 20 anos, que confessou os crimes. Em depoimento, ele relatou ter desferido 31 facadas contra a vítima, sendo 26 delas na região do pescoço.

Situação semelhante aconteceu com Clara Vitória da Silva, de 23 anos, morta pelo vizinho Douglas Aparecido Ferreira. Ele também confessou o assassinato e o estupro cometido contra a vítima. Ambos os casos aconteceram em Tangará da Serra.

Também foram vítimas de feminicídio neste mês a empresária Nilza Moura de Sousa Antunes, de 64 anos, morta pelo marido em Cuiabá, em um caso desvendado no dia 5 de maio, e Elzilene Alves do Nascimento, de 49 anos, assassinada pelo companheiro, com quem era casada havia 30 anos, em Várzea Grande. O corpo dela foi encontrado em uma região de mata, próximo a um córrego no bairro Marajoara, no dia 7 de maio.

Nilza, empresária do ramo imobiliário, foi encontrada morta e enterrada no quintal de uma residência no bairro Parque Cuiabá, na Capital. O marido dela, Jackson Pinto da Silva, de 38 anos, confessou ter amarrado o corpo e utilizado um lacre plástico, conhecido como “enforca-gato”, para asfixiá-la. Na tentativa de ocultar o cadáver, ele contratou uma máquina para cavar o buraco no quintal, alegando que o serviço seria para a instalação de uma manilha.

Além da violência física, o crime teve motivação financeira. Jackson chegou a simular um sequestro da esposa e realizou transferências bancárias com dinheiro da vítima após a morte.

Já Elzilene foi assassinada a facadas por Francisco Carlos Pereira da Silva, de 68 anos. Ele confessou o crime e foi preso. De acordo com a investigação da Polícia Judiciária Civil, o homem atraiu a esposa para um suposto passeio na região e, ao chegar a um local isolado, passou a atacá-la. Ele desferiu 10 golpes de faca contra a mulher, que chegou a pedir clemência e implorar pela vida, mas não resistiu aos ferimentos.

Nenhuma das vítimas conseguiu registrar boletim de ocorrência ou solicitar medida protetiva contra os agressores antes dos crimes.

Feminicídios e medidas protetivas

Do total de 18 feminicídios registrados neste ano em Mato Grosso, apenas uma vítima possuía medida protetiva. Março foi o mês mais violento do período, com seis assassinatos registrados.

Até agora, as autoridades aplicaram 7.088 medidas protetivas no Estado, número que busca frear a violência que, em 2025, gerou 18.223 pedidos de proteção. As medidas protetivas, previstas na Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), são mecanismos fundamentais para garantir segurança às mulheres e permitir que denunciem seus agressores.

Elas podem ser solicitadas independentemente da tipificação penal ou da instauração imediata de inquérito policial, funcionando como forma de conter a violência por meio de restrições ao agressor que, se descumpridas, podem resultar em prisão imediata.

Denuncie

A violência contra a mulher não pode ser ignorada nem ficar impune. Em Mato Grosso, há canais gratuitos e seguros para denunciar agressões, ameaças ou risco de feminicídio.

As denúncias podem ser anônimas, e o boletim de ocorrência pode ser registrado online, por meio da Delegacia Digital: https://delegaciadigital.pjc.mt.gov.br/

Em casos de emergência ou flagrante, a orientação é procurar ajuda imediata pelos telefones 190 (Polícia Militar), 197 (Polícia Civil), 181 (Disque Denúncia) ou 180 (Central de Atendimento à Mulher). Em Cuiabá, também é possível acionar a Patrulha Maria da Penha pelo número (65) 98170-0199.

O atendimento presencial está disponível na Delegacia Especializada de Defesa da Mulher de Cuiabá e na Delegacia da Mulher de Várzea Grande. A pena para crimes contra a mulher pode chegar a 40 anos de prisão, conforme previsto na Lei Federal nº 14.994/2024, conhecida como Pacote Antifeminicídio.