Uma das principais instituições de ensino do mundo, a Universidade de Harvard aceitou pagar uma fortuna de US$ 53 milhões (mais de R$ 276 milhões) para encerrar um processo judicial movido por parentes de pessoas falecidas que tiveram os seus corpos cedidos para a universidade e que acusam a instituição de um suposto envolvimento com caso de tráfico humano.

Um juiz estadual de Boston (Massachusetts, EUA) aprovou o acordo milionário de forma preliminar, motivado pela prisão de Cedric Lodge, ex-chefe do necrotério da faculdade de medicina, acusado de roubar e comercializar pedaços de corpos e órgãos de cadáveres doados para estudos científicos.

Cedric trabalhou por quase três décadas no necrotério de Harvard até ser detido em 2023 e receber uma pena de oito anos de prisão. De acordo com os promotores do caso, o esquema criminoso começou em 2018, quando ele passou a furtar órgãos e restos mortais, incluindo cabeças, rostos, cérebros, pele e mãos.

O homem levava o material clandestino para a sua casa, no estado de New Hampshire (EUA), e, ao lado da esposa, despachava as encomendas do mercado clandestino para clientes em outros estados. A mulher também acabou condenada e pegou pouco mais de um ano de prisão por participação no esquema.

Pele encadernou livro
Num dos relatos mais assustadores, a promotoria comprovou que o acusado forneceu pele humana para um comprador curtir o tecido e encadernar um livro. A procuradora assistente Alisan Martin destacou o horror do crime e apontou outro episódio chocante no caso, que classificou como uma "realidade profundamente horrível".

"Em outro caso, Cedric e Denise Lodge venderam o rosto de um homem — talvez para ser guardado em uma prateleira, talvez para ser utilizado para algo ainda mais perturbador", disse Martin.

Dezenas de familiares que ingressaram com a ação coletiva denunciaram a omissão de Harvard, acusando a universidade de saber do comércio clandestino. Embora o caso tenha sido arquivado em um primeiro momento, a Suprema Corte de Massachusetts pediu a reabertura do processo em outubro do ano passado após concluir que a universidade agiu de má-fé e permitiu que os corpos recebessem tratamento "indigno e desumano".

O reitor da faculdade de medicina de Harvard, George Daley, e o reitor de educação médica da Escola de Medicina de Harvard, Bernard Chang enviaram uma carta aberta classificando o comportamento do ex-funcionário como "desprezível, abominável e uma traição vergonhosa aos princípios éticos da medicina".

Além da indenização em dinheiro prevista no acordo, a Faculdade de Medicina de Harvard foi obrigada a fornecer uma declaração às famílias afetadas por meio de um webinar, confirmando que os atos criminosos de Lodge eram "moralmente repreensíveis".