Conhecido por transformar a história da tecnologia ao fundar a Microsoft, Bill Gates (70) voltou a ocupar o centro do debate público mundial em maio do ano passado por um motivo bem diferente do software.
O empresário norte-americano anunciou que pretende doar 99% de sua fortuna pessoal, estimada em US$ 108 bilhões (cerca de R$ 615 bilhões), ao longo dos próximos 20 anos, destinando os recursos à Gates Foundation, organização voltada ao combate à pobreza extrema e a doenças evitáveis.
Segundo Gates, somadas as doações pessoais e os recursos já administrados pela fundação, cerca de US$ 200 bilhões (aproximadamente R$ 1,1 trilhão) deverão ser investidos em ações humanitárias até 2045, ano em que a entidade encerrará definitivamente suas atividades. A declaração foi feita durante o evento que marcou os 25 anos da fundação, criada em 2000 ao lado de sua então esposa, Melinda French Gates (61), e posteriormente reforçada pela adesão do investidor Warren Buffett (95).
O anúncio ocorre em um momento que Gates classificou como “trágico”: a redução da ajuda internacional por parte de governos de países ricos. Para ele, esses cortes podem reverter décadas de progresso na saúde global, especialmente na redução da mortalidade infantil. “Meu sonho é que, quando as pessoas leiam a palavra ‘malária’, elas se perguntem o que era isso”, afirmou, ao defender investimentos contínuos no combate a doenças como malária, poliomielite, sarampo e AIDS.
Crítica aos EUA e iniciativa global
Em tom contundente, Gates criticou a diminuição de programas de ajuda humanitária dos Estados Unidos e fez declarações diretas sobre o impacto dessas decisões. Em entrevista ao Financial Times, chegou a afirmar que “a imagem do homem mais rico do mundo matando as crianças mais pobres do mundo não é bonita”, em referência a Elon Musk (54), que lidera um órgão do governo americano voltado ao corte de custos. Apesar disso, ponderou que as decisões finais cabem ao Congresso dos EUA, não a indivíduos isoladamente.
A Gates Foundation já destinou US$ 100 bilhões a projetos ao redor do mundo, apoiando iniciativas como a aliança global de vacinas Gavi e o Fundo Global de Combate à AIDS, Tuberculose e Malária. O orçamento anual da fundação deve chegar a US$ 9 bilhões até 2026, tornando-a uma das organizações privadas mais influentes na área da saúde global — influência que também gera críticas, sobretudo pela falta de mecanismos formais de prestação de contas em organismos internacionais como a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Mesmo alvo frequente de teorias da conspiração e críticas sobre seu poder político, Gates afirma que acelerar a doação de sua fortuna é uma decisão pessoal e moral. “As pessoas dirão muitas coisas sobre mim quando eu morrer, mas estou determinado que ‘ele morreu rico’ não será uma delas”, escreveu em seu site. “Existem problemas urgentes demais para eu manter recursos que poderiam ser usados para ajudar outras pessoas.”
A trajetória que o levou a essa posição começou décadas antes, quando Gates abandonou Harvard para fundar, aos 19 anos, a Microsoft ao lado de Paul Allen (1953-2018). Visionário e negociador agressivo, ele foi figura central na revolução do computador pessoal e liderou por anos o ranking das maiores fortunas do mundo. Em 2008, deixou o comando diário da empresa para se dedicar integralmente à filantropia.